O Brasil pode ser considerado experimento social falido. Também , não poderia ser diferente , uma vez que o colonizador aqui chegou iludindo os indígenas , donos do lugar , oferecendo-lhes um “espelho” em troca de suas terras. Não satisfeitos , ainda cuidaram de dizimá-los cultural e existencialmente. Não sem antes catequizá-los e apresenta-los ao seu “Deus” branco e eurocêntrico , que legitimava , entre outras coisas , a escravidão de seres humanos e a morte daqueles que não se submetessem a vontade de seus “filhos” europeus.

Herdeiro legítimo dos criadores desse experimento social , cuja fórmula foi elaborada para a manutenção de castas e privilégios ao longo dos séculos , Dom Bertrand de Orleans e Bragança , que se apresenta como príncipe imperial do Brasil , declarou em conferência do Itamaraty , que não existe racismo no Brasil. Segundo ele , “estão procurando criar esse problema racial aqui no Brasil , mas não conseguem. Aqui todos nos damos bem. Aqui no Brasil , todos nós vivemos bem”. Disse isso , sem ficar corado de vergonha depois.

O simples fato de termos alguém que ainda ostenta com orgulho o título de “príncipe imperial” , é uma prova de que o racismo sempre será relativizado , quando não negado , por aqueles que desde sempre foram favorecidos por sua existência na estrutura da nossa sociedade. Não abrir de seus títulos e privilégios , é manter o status quo sócio racial que foi instituído por seus ancestrais. Título e cor da pele , são privilégios para poucos por aqui. E entre esses poucos agraciados com tamanha nobreza e honraria, não figuram os de pele negra.

Dom Bertrand de Orleans e Bragança não enxerga racismo nas tantas coisas que acontecem no dia-a-dia do país. O que é natural , vindo de alguém que ainda não percebeu que não é mais príncipe e que não vivemos mais numa Monarquia. Porém , a ideologia negacionista dos fatos não os tornam irreais ou inverídicos. Ela apenas evidencia a má fé dos ideólogos , diante de um problema estrutural que eles não têm o menor interesse em corrigir , porque se beneficiam de sua existência.
A manutenção ou a perpetuação do racismo em nossa sociedade , é servir a receita original do experimento social brasileiro. Uma colher de chá cheia de privilégios para os herdeiros das capitanias e uma pitadinha de direitos para os descendentes dos escravizados , só par dar um gostinho de liberdade.

Essa é a fórmula do nosso sucesso branco e eurocêntrico. Um país onde ressurgem dos escombros mais sombrios de sua história , príncipes , integralistas , soberanistas , supremacistas , ditadores , religiosos escravocratas e propaganda que sugere inferioridade racial , não deve ser considerado mesmo racista. Deve ser considerado falido , ética , moral , social e humanamente falando.

Leandro Scala é Historiador e ativista politico

https://www.facebook.com/scala.leandro

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