Tem sido frequente as notícias sobre erros médicos nos jornais, e o assunto também é objeto de queixa entre as pessoas no seu dia a dia. Isso não quer dizer que a qualidade dos serviços médicos caiu, mas que a sociedade está mais atenta e mais exigente, não mais aceita submeter-se à autoridade médica e procura as vias judiciais para decidir sobre vitimizações causadas por supostos desvios do ato médico.

Um estudo recente do Ministério da Saúde apontou uma taxa de aproximadamente 10% de erros médicos no país, um percentual bastante preocupante, até porque o erro no ato médico pode resultar em prejuízos graves e mesmo óbito. Esse mesmo estudo, conduzido pela Fiocruz, mostrou que 67% desses erros poderiam ser evitados com medidas simples como a checagem de equipamentos cirúrgicos antes de cirurgias, esterilização adequada de instrumentos, higienização do ambiente e das mãos dos atendentes, etc.

Agora o ministro da Saúde e o diretor-presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) lançaram o Programa Nacional de Segurança do Paciente, que compreende seis protocolos de segurança, focalizando os problemas mais frequentes nos serviços de saúde das redes pública e privada. Entre os problemas mais comuns estão erros em procedimentos cirúrgicos, queda do paciente, infecções e administração incorreta de medicamentos.

A portaria do MS torna obrigatória a criação de Núcleos de Segurança do Paciente (NSP), e com isso, pretende-se reduzir a incidência de erros no atendimento de pacientes. O objetivo dos NSP é o monitoramento constante das práticas médicas, a notificação mensal obrigatória de eventos adversos com pacientes, e a padronização de procedimentos em todo o país. O hospital que não instalar seu NSP poderá perder seu alvará de funcionamento.

Esse foi um passo importante, já longamente esperado, e sem dúvida será muito importante para a melhoria da qualidade da assistência médica. Entretanto, necessitamos compreender mais profundamente a origem do erro médico para melhor combatê-lo. Como isso é um assunto que me interessa, tenha observado que o erro mais freqüente se dá por negligencia, e esse erro se origina de três causas:

A primeira, e a mais importante em minha opinião, é a contratransferência por parte do médico. Isso pode levar a negligência no diagnostico e no tratamento. Alguns médicos ainda acham – e isto pode ser um defeito de formação ou um traço de personalidade – que o paciente deve ser passivo, não questioná-lo e aceitar incondicionalmente o que ele determina. Outros não aceitam que o tratamento prescrito não tenha tido efeito no paciente, e então o responsabilizam pelo fracasso, o que pode seguir-se de reprovações humilhantes. Isto é uma das causas de muitos processos contra médicos e queixas aos CRMs. De fato, na maioria dos processos, a verdadeira causa escondida sob as queixas contra médicos é a péssima relação médico-paciente, uma arte que todo médico deveria cultivar e que é um dos pontos mais essenciais da doutrina hipocrática e do sucesso do tratamento.

A segunda causa de negligencia é o cansaço. O médico deve estar atento a isso, pois o cansaço gera estresse e prejudica a cognição, comprometendo o julgamento e o raciocínio. Mesmo o médico que ama a sua atividade e se dedica a ele com afinco deve saber que o cansaço é uma exigência de repouso do cérebro, que precisa remover toxinas, reparar suas reservas de neurotransmissores e regular seu metabolismo.

A terceira causa de erro, menos comum, mas muito importante, será comentada em um próximo artigo.

Fernando Portela Câmara
Medico-psiquiatra
Prof. Associado, UFRJ

Fonte: https://www.polbr.med.br/ano13/cpc0313.php

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