A cultura da paz vem sendo discutida já há algum tempo, mais precisamente iniciada em 1999, quando a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO levantou esta bandeira como necessidade mundial, em oposição não somente às grandes guerras, mas na busca pela prevenção de toda e qualquer situação que possa ameaçar a paz e a segurança, que vão desde a degradação do meio ambiente, exclusão social, discriminação, racismo, intolerância e as várias formas de desrespeito aos direitos humanos.

Porém, a cultura da paz não traz uma idéia de paz silenciosa, abafada, sem conflitos. Acreditando que o anseio pela paz esteja dentro de cada ser humano, não pode isto representar uma espera frágil, longínqua ou até mesmo fictícia. É preciso enxergar a paz como meta a ser alcançada pela busca constante, como uma construção pautada na reivindicação, na construção do conhecimento, pela garantia da democracia e no exercício pleno da cidadania.

Uma grande barreira para a cultura da paz é a configuração de nossa sociedade, pautada no capitalismo. O objetivo capitalista tende a não analisar suas ações de outro ponto de vista que não seja o lucro. No cotidiano, pouco importa a taxa de desemprego, se eu tenho trabalho, pouco importa a evasão escolar do outro, pouco importa as filas gigantescas esperando por atendimento médico público, e assim por diante. Tal configuração está tão internalizada, tão natural que, quando o indivíduo se vê em situação de prática esportiva, por exemplo, já pensará logo em competição, e mais ainda, em individualismo, já não bastará pertencer a uma equipe vencedora, precisará também ser o melhor jogador da equipe vencedora, nem que para que isso ocorra, acabe prejudicando outros participantes.

E como essa construção da paz pode ser realizada no cotidiano das cidades?

          Encontramos, nos serviços e espaços públicos, oportunidades de exercitar-se dentro de várias modalidades de jogos, esportivos ou não. O jogar é essencial para que as pessoas manifestem sua espontaneidade, utilizando suas potencialidades de maneira integral, com alegria, divertimento, entusiasmo, confiança, adquirindo aprendizagem e aperfeiçoamento. Mas este “jogar”, não é benéfico a todos quando se resume em ganhar ou perder, marcar gols, pontos, ou conquistar um lugar no pódio. Neste contexto, a construção coletiva, a melhoria do conjunto, a satisfação da participação, quando vividas nas atividades físicas e de lazer são sinais de paz.

Relacionar-se pautado na cultura da paz representa uma forma de manter uma relação de ajuda mútua com os outros e a natureza, cuidando para também ser cuidado, em uma espécie de jogo cooperativo, no qual não há nenhum perdedor, mas sim colhedores de bons frutos de ambos os lados.

O modelo de cooperação pode ser construído desde a infância, quando a necessidade de expressão afetiva e social é proporcionada através de inúmeras atividades, dentre as quais podemos identificar uma grande contribuição das práticas corporais. Sendo assim, propostas de atividades cooperativas nesta fase do desenvolvimento humano tornam-se importantes para que seja construída uma postura de coletividade, onde um indivíduo não precisa sobrepor ao outro para obter sucesso, mas sim agrupar-se no coletivo para um sucesso ainda maior e que não ofereça prejuízos alheios

          Ao tratar da valorização da experiência em grupo e resolução de conflitos, os jogos cooperativos são ótimas oportunidades para trabalhar valores e convivência humana, podendo ser adaptáveis a diversos enfoques e também a diversas modalidades de jogos.

          No jogo cooperativo, não tratamos mais o resultado, o ganhar ou perder. O principal olhar nesse tipo de atividade é sobre o processo, as manifestações pessoais e consciência coletiva presentes durante a busca da meta de um determinado grupo. A cooperação e a ajuda são um fim em si mesmas, em vez de um meio para se atingir um fim. É a pura satisfação em ajudar outras pessoas a alcançar seus objetivos.

          Terry Orlick, psicólogo norte americano e grande pesquisador sobre jogos cooperativos, oferece algumas maneiras de adaptações aos jogos, são elas:

Jogo cooperativo sem perdedores: são os jogos plenamente cooperativos, pois todos jogam juntos para superar um desafio comum e não há perdedores.

          Jogos cooperativos de resultado coletivo: são formadas duas ou mais equipes, mas o objetivo do jogo só é alcançado com todos jogando juntos, por um objetivo ou resultado comum a todos.

          Jogo de inversão: esses quebram o padrão de times fixos, em que dependendo do jogo, os jogadores trocam de times a todo instante, dificultando reconhecer vencedores e perdedores.

          Jogos semicooperativos: esses jogos favorecem o aumento da cooperação do grupo, e oferece as mesmas oportunidades de jogar para todas as pessoas do time, mesmo um com menor habilidade, pois existem regras para facilitar a participação desses. Os times continuam jogando um contra o outro, mas a importância do resultado é diminuída, pois a ênfase passa ser o envolvimento ativo no jogo e a diversão.

          Podemos dizer que os jogos cooperativos são capazes de proporcionar um ambiente em que se possa aprender a solucionar problemas, desenvolver valores humanos como empatia e compreensão, onde não ocorra exclusão ou seleção de pessoas, mas sim um ambiente que encaixe cada jogador onde ele possa desenvolver habilidades e competências e, acima de tudo, ser importante dentro da equipe, sempre olhando para cada um pelo que realmente é, e não pelos pontos que marca ou vitórias que conquista.

          Sendo assim, se conseguirmos uma implantação de atividades de esportes e lazer voltadas à cultura da paz nos espaços públicos, tal qual possam ser comparadas a uma celebração de amizade, este sentimento pode servir como impulso para a ampliação da solidariedade, cooperação e convivência social, o que resultará, por sua vez, em melhoria da qualidade de vida dos cidadãos, com aumento da satisfação em desfrutar dos espaços e um sentimento de paz efetivamente construída.

Grande abraço, paz e bem!

Jackson Franco de Oliveira é Professor de Educação Fisica e Assessor Parlamentar de Anderson Prego (PT) – Colombo

Deixe uma resposta