O ser humano utiliza o corpo e o movimento como as primeiras formas de linguagem. Podendo ser realizado pelo bebê já poucos minutos após seu nascimento,  e segue organizando o movimento e o executando por imitação, de acordo com um modelo, como o rosto da mãe ou de quem interage com ele face a face.

Muito do que nos é emitido, é também, de alguma forma, refletido pelo nosso corpo (movimentos, posições, dores, desconfortos, relaxamento, entre outros). Desta maneira, o desenvolvimento humano, em todas as suas dimensões, dependerá das oportunidades de interação, exploração do meio ambiente e do contato com outras pessoas que a criança terá ao longo da vida.

Esteban Levin, psicomotrista argentino, em entrevista para a revista nova escola, disse certa vez que o corpo e os gestos são fundamentais para a formação geral do ser humano. Desde que nasce, a criança usa a linguagem corporal para conhecer a si mesma, para relacionar-se com seus pais, para movimentar-se e descobrir o mundo. Ele afirma que as descobertas feitas com o corpo são “tesouros”, que guardamos e usamos como referência quando precisamos ser criativos em nossa profissão e resolver problemas cotidianos.

Na fase escolar, o corpo é objeto de estudo e, ao mesmo tempo, ferramenta para aprender. Ou seja, nas aulas de Educação física, por exemplo, os alunos têm o seu tempo para reconhecer o seu corpo, assim fazendo dele, um objeto de estudo. Por outro lado, existe também a possibilidade de aprender um jogo, uma brincadeira nova, ou algo que vá além da aquisição de habilidades corporais ou do desenvolvimento de capacidades físicas, mas que possa levar aos alunos, aspectos importantes acerca das diferentes dimensões humanas (social, cultural, política). Nesse contexto, o corpo desempenha então o papel de ferramenta, possibilitando ao estudante sua participação e integração com os conteúdos das atividades propostas.

É na escola que novas explorações são possíveis, pois agora o ser social pode buscar o que lhe agrada e testar o efeito de suas ações sobre os objetos segurando, jogando, chutando, empurrando ou puxando o que estiver ao seu alcance. Nesse processo, o movimento é um importante recurso de conhecimento do mundo, ao mesmo tempo em que expressa o pensamento da criança, suas ações e relações com pessoas e objetos.

É muito importante a aquisição de habilidades e também a tomada de consciência do corpo e de suas relações com o meio. A criança apreende a cultura corporal e desenvolve equilíbrio, ritmo, resistência, velocidade, força e flexibilidade corporal, principalmente por meio de jogos, brincadeiras, danças e eventos culturais.

A Educação Física permite que se vivenciem diferentes práticas corporais, das mais diversas manifestações culturais. Permite também, que se enxergue essa variada combinação de influências presentes no cotidiano.

          As informações trazidas até aqui são bastante aceitas e validadas em nossa comunidade, principalmente em âmbito escolar. No entanto, há um certo abismo entre o que se propõe enquanto consciência corporal na escola e o que vemos no cotidiano, mais especificamente, no mundo adulto.

          Talvez por isso muitas relações sociais tenham caráter separatista, classista e excludente. Há ainda a visão estreita de práticas corporais coletivas. Em que momento aprendemos que a competição deve ser a norteadora das atividades de lazer do adulto? Em que momento aprendemos também que a imagem corporal é balizadora para as práticas de esporte e lazer?

          A relação entre a consciência corporal tem muita importância quando tratamos sobre a diferenciação entre padrões estéticos e parâmetros relacionados à saúde. Por exemplo, uma pessoa cuja medida da circunferência  abdominal seja próxima de 100cm, está fora dos padrões de beleza inculturados. No entanto, de acordo com dados da OMS, acima de 102cm, em média, tal medida se relaciona com certas doenças.

          Voltando à importância da consciência corporal, ao meu ver sua maior importância não está em poder contrapor os padrões de beleza, mas sim em proporcionar ao indivíduo o autoconhecimento. Qualquer que seja a prática corporal, desde que aliada a uma reflexão, contribui pra o desenvolvimento da autonomia, fornecendo o devido conhecimento para monitorar as próprias atividades, regulando o esforço, traçando metas, conhecendo as potencialidades e limitações, e sabendo distinguir situações de trabalho corporal que podem ser prejudiciais.

          A consciência corporal engloba todas as formas pelas quais uma pessoa vivencia e conceitua seu próprio corpo. Embora seja um fenômeno singular, impacta significativamente nas relações sociais e na imagem que traçamos das outras pessoas. Ou seja, uma pessoa que reconhece suas potencialidades e limitações tendo um determinado padrão corporal, poderá compreender que o padrão corporal de outra pessoa esconde também uma variedade de potencialidades e limitações. Neste ponto, a consciência corporal pode colaborar para a quebra de preconceitos e proporcionar maior interação humana, pautada na pluralidade.

          Analisando e discutindo as cidades, relacionando com a cultura corporal do movimento, é preciso pensar nos espaços públicos e atividades, possíveis e facilitadas de se vivenciar de forma individual e coletivamente. Neste aspecto, uma política pública voltada fortemente para os esportes espetáculo, ou competições esportivas, mas pouco voltada em promoção do lazer e da ludicidade, pode estar colaborando para uma sociedade com sentimentos separatistas.

          Ao se pensar em soluções para a construção de uma sociedade cooperativa, mais empática, curiosamente podemos encontrar as respostas nas propostas escolares, nos Parâmetros Curriculares Nacionais, por exemplo, que propõem a diversidade de manifestações culturais e corporais, com objetivo de ampliar o conhecimento, diversificar as vivências e valorizar as diferenças.

          E então, nossa consciência corporal nos permite desfrutar livremente da cidade? E nossa cidade, permite e facilita nossa vivência e construção da consciência corporal?

   Grande Abraço

Jackson Franco de Oliveira é professor de Educação Fisica e assessor parlamentar do vereador Anderson Prego (PT)

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