Texto de Terry Gross. Publicado originalmente com o título: How ‘Bad Medicine’ Dismisses And Misdiagnoses Women’s Symptoms, no site National Public Radio em 27/03/2018. Tradução de Carina Santos para as Blogueiras Feministas.

Quando a jornalista Maya Dusenbery estava com 20 anos, ela começou a sentir dores progressivas nas articulações e acabou aprendendo que elas eram causadas pela artrite reumatóide.

A medida que ela começou a pesquisar por conta própria sua doença, Dusenbery percebeu como teve sorte em receber seu diagnóstico de forma relativamente fácil. Ela conta que outras mulheres com sintomas similares “sofreram uma longa demora no diagnóstico e sentiram… que seus sintomas não foram levados a sério”.

Dusenbery mostra que essas experiências estão incluídas em um grande padrão do viés de gênero na medicina. Seu novo livro, Doing Harm (Fazendo Mal, em tradução livre ainda sem título em português), argumenta que os sintomas das mulheres são frequentemente descartados ou diagnosticados incorretamente — em parte pelo que ela chama de “viés sistêmico e inconsciente que está enraizado … no qual os médicos, independente de seu próprio gênero, estão aprendendo nos cursos de medicina”.

“Eu definitivamente acredito que o fato da medicina ter sido histórica e continuamente dirigida por homens seja a fonte de alguns desses problemas”, ela diz. “O conhecimento da medicina que temos é desproporcionalmente inclinado a saber mais sobre os corpos dos homens e as condições que os afetam”.

Dusenbery também é editora executiva do Feministing, um site escrito por jovens feministas sobre questões sociais, culturais e políticas.

Melhores momentos da Entrevista

Como as mulheres foram deixadas de fora dos testes de medicamentos e estudos de observação médica

Havia muita preocupação sobre a inclusão de mulheres em testes de medicamentos, especificamente por causa de preocupações sobre como essas drogas poderiam afetar seus fetos hipotéticos. Dessa forma, nos anos 70, a FDA tinha uma política de proibir qualquer mulher em idade fértil de participar de testes de medicamentos em estágio inicial…

Mas também vemos que, naquela época, as mulheres também eram excluídas de estudos que eram apenas estudos de observação — não apenas testes de medicamentos. Nos anos 90, quando aconteceram audiências no Congresso sobre esse problema, o público ficou sabendo que as mulheres haviam sido deixadas de lado de coisas como um grande estudo observacional sobre o envelhecimento humano normal que estava em andamento há 20 anos. Tudo começou nos anos 50, e nos primeiros 20 anos as mulheres ficaram de fora disso.

Sobre a recente inclusão das mulheres nos estudos do National Institutes of Health (NIH)

Em 1993, o Congresso americano aprovou uma lei dizendo que as mulheres precisavam ser incluídas nas pesquisas clínicas financiadas pelo NIH. E, no agregado, as mulheres compõem a maioria dos assuntos na pesquisa do NIH. No entanto, ainda não sabemos se as mulheres são, necessariamente, representadas de maneira adequada em todas as áreas de pesquisa, porque o NIH observa os números agregados e, as análises externas que foram feitas, mostram que as mulheres ainda estão um pouco sub-representadas.

Ainda mais importante, embora as mulheres estejam sendo incluídas de forma geral na maioria dos estudos hoje, ainda não é a norma analisar os resultados por gênero para realmente ver se existem diferenças entre homens e mulheres. Então, os especialistas descreveram isso para mim como uma abordagem “adicione mulheres e misture”. As mulheres estão incluídas, mas ainda não estamos obtendo o conhecimento de que precisamos sobre como os sintomas ou as respostas ao tratamento podem diferir dos homens.

Porque alguns remédios afetam homens e mulheres de maneira diferente — e como isso resulta em mulheres recebendo doses excessivas da maioria das drogas

Há muitos fatores que influenciam nessas diferenças sexuais reconhecidas no metabolismo e na resposta a medicamentos. … Porcentagem de gordura corporal afeta isso. Hormônios, diferentes níveis de enzimas — todas essas coisas entram nessa diferença. Mas, na verdade, provavelmente o fator mais direto é que, em média, os homens têm um peso corporal maior do que as mulheres. E, no entanto, essa diferença geralmente não é contabilizada. Nós prescrevemos medicamentos baseados nessa dosagem única, mas isso significa que, em média, as mulheres estão sendo medicadas com doses em excesso na maioria das medicamentos.

As diferença entre homens e mulheres quando passam por doenças cardíacas

Ao longo das últimas décadas, há um reconhecimento de que nos primeiros 35 anos de estudos das doenças do coração, na verdade estudamos principalmente os homens. Portanto, está acontecendo um esforço conjunto para voltar e comparar as experiências das mulheres com as dos homens, o que levou ao conhecimento de que as mulheres têm maior probabilidade de ter o que são considerados sintomas atípicos. E a única razão pela qual eles são considerados “atípicos” é porque a norma tem sido esse modelo masculino — então, sintomas atípicos, como dor no pescoço ou ombro, náusea, fadiga, tontura. …

Em parte, como resultado dessas diferenças nos sintomas — que nem sempre são reconhecidos pelos profissionais de saúde — as mulheres (especialmente as mulheres mais jovens) são mais propensas a serem dispensadas quando estão tendo um ataque cardíaco, sendo mandadas para casa. Um estudo descobriu que as mulheres mais jovens — mulheres com menos de 55 anos — eram sete vezes mais propensas do que o paciente médio a serem encaminhadas para casa tendo um ataque cardíaco… Mesmo quando elas não forem mandadas para casa, você verá mais atrasos para obter eletrocardiogramas e outros testes diagnósticos ou intervenções na sala de emergência.

Sobre como o sintoma subjetivo de fadiga é descartado em mulheres

Um dos sintomas mais comuns, que está frequentemente associado a doenças auto-imunes, é a fadiga — uma fadiga realmente intensa e profunda que não é apenas a privação de sono por ficar acordada até tarde. Essa fadiga, comparável à dor, é um sintoma muito subjetivo e difícil de comunicar para outras pessoas. E acho que as mulheres sempre tem que enfrentar essa desconfiança real quando fazem relatos de seus próprios sintomas.

Dessa forma, penso que condições como doenças auto-imunes, que são diagnosticadas por esses sintomas subjetivos como dor e fadiga, são muito fáceis de serem descartadas em mulheres… Mesmo que saibamos sobre doenças auto-imunes, durante a demora do diagnóstico, as mulheres costumam ouvir: “Você está estressada. Você está cansada”. E elas têm muita dificuldade em convencer os médicos de que esse cansaço é anormal.

Sobre algumas pacientes do sexo feminino levarem parentes do sexo masculino ou cônjuge para consultas médicas para testemunhar por elas

Esta é uma das coisas mais perturbadoras que encontrei em minha pesquisa: várias mulheres relataram que, enquanto lutavam para que levassem os seus sintomas a sério, perceberam que o que precisavam era alguém para servir como testemunha de seus sintomas, para testemunhar a sua sanidade, e sentiram que levar um parceiro, um pai ou mesmo um filho seria útil. E então, elas descobriram que era realmente útil, que elas foram tratadas de forma diferente quando havia aquele homem na sala que estava corroborando seus relatos.

Créditos

Terry Gross é apresentadora e produtora executiva do premiado programa de rádio americano Fresh Air. Heidi Saman e Seth Kelley produziram e editaram essa entrevista para ser transmitida. Bridget Bentz, Molly Seavy-Nesper e Scott Hensley a adaptaram para ser publicada no site.

Carina Santos, que fez a tradução, tem 41 anos e é farmacêutica. 

Imagem: PhotoAlto/Michele Constantini/Getty Images.

Fonte: blogueirasfeministas.com http://blogueirasfeministas.com/2018/04/medicina-descarta-e-diagnostica-incorretamente-mulheres/#more-23388

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