A pouca participação das mulheres na política pode ser atribuída a forma com que as meninas são educadas. Quando uma cultura machista é reproduzida constantemente na educação das crianças faz com que certos comportamentos sejam tidos como normal.

Antes mesmo da criança nascer a família e a sociedade automaticamente já cria uma ideia de como será a vida desta criança.

Se menino ouvimos coisas como: “A o meu filho vai ser machão”, “Brinquedo de menino é azul, é carrinho, é moto, é bola”, “Cuidar de criança e da casa não é coisa de menino, logo este tipo de brinquedo é de menina”, “o meu filho terá liberdade sexual para ficar com quem ele quiser, mas a irmã dele não”; “Ser machão não é ser sensível é não demonstrar fraquezas”.

Se menina ouvimos: “Bonecas, brincadeira de casinha isso sim é brincadeira de menina, já vai aprendendo para quando casar”, “carrinho, jogar bola na rua, moto, isso é coisa de piá, menina tem que ser delicada”, “menina desde cedo tem que ajudar nas tarefas domésticas”, “Uma mulher só é feliz quando casa e tem filhos”, “não saia com esta roupa curta vai chamar atenção”, “você tem que se comportar como uma menina, ou seja sendo submissa e obediente. Ter autonomia e se sentir segura são características de meninos. ”

Por que será que a educação e as brincadeiras das meninas são mais voltadas para o âmbito privado, mas quanto aos meninos é reservada a esfera pública?

Os meninos são ensinados a serem belos, recatados e do lar e as meninas?

Sabemos que há diferenças biológicas entre meninos e meninas, contudo a maioria dos padrões de comportamentos impostos pela sociedade para ambos os gêneros, refletem os problemas que o machismo impõe. Estes padrões dizem como as mulheres devem ser e de como um homem deve ser para não ser taxado como afeminado, contudo precisamos romper estes estereótipos.

A participação das mulheres na política não se limita apenas a política partidária, que também é se suma importância, já que o número de mulheres que ocupam espaços em cargos eletivos é irrisório. A ausência das mulheres em outros espaços de poder também é expressiva.

Para além dos cargos eletivos percebemos a ausência das mulheres nas reuniões sobre a política no seu bairro, no seu município e até entre os vizinhos. Sabemos que está carência de mulheres nestes espaços de discussão, sobre seus próprios direitos, se dá por inúmeros motivos podemos citar alguns:

  • A dupla ou até tripla jornada de trabalho. (Trabalho e estudo)
  • As barreiras que o machismo impõe, como por exemplo: muitas vezes as palavras de uma mulher sobre questões políticas é muito menos ouvida, do que se um homem repetir a mesma coisa.
  • O estereótipo imposto para as mulheres. Exemplos:  comportamentos que duvidam de sua inteligência e competência, e acaba associando ela a algum um homem (marido, namorado,parente) que este realmente saiba de política e que ela estaria por traz da sombra dele.   Até mesmo insinuações de que se a mulher está envolvida com política é por que ela estaria transando com algum homem que tem atuação política.
  • Também a sua insegurança, já que participar da vida pública é algo que sempre foi roubado historicamente das mulheres, principalmente das mulheres negras.
  • Dentre tantos outros motivos que seriam intermináveis se fossemos pensar em todos.

Retomando alguns dados sobre a participação das mulheres na disputa eleitoral. Segundo pesquisa realizada pela União Inter-Parlamentar apresenta que o Brasil ocupa apenas a 116ª posição no ranking de representação feminina no Legislativo comparado a 190 países. Na Câmara Federal apenas 9,9 % são de deputadas eleitas em 2015, ainda considerando que muitas que lá estão não apresentam políticas para as mulheres, trata-se de um percentual muito pequeno comparado ao ocupado pelos homens. No senado não é diferente ocupando 13,6% das cadeiras até 2019. Nos executivos Estaduais nunca na história se passou de 11% de governadoras.

Quando passamos a pesquisar com o recorte racial percebemos que as mulheres negras praticamente não têm espaço nos cargos eletivos em âmbito geral podemos contar nos dedos as mulheres negras que realmente nos representaram nestes espaços e podemos citar algumas:

Benedita Souza da Silva Sampaio– Ex empregada doméstica, graduada em serviço social e proveniente da periferia, teve uma carreira meteórica sendo a 1º senadora negra em 1992) e prosseguindo em outros cargos de vida política até o ano de 2010.

Maria Olivia Santana – A vida pública para a Maria Olivia, começa cedo a participar da militância estudantil. É no movimento negro que ela passa a integrar cargos importantes como dirigente da Unegro e em 2015 assumiu a Secretaria de Política para as Mulheres.

Leci Brandão da Silva– Atual Deputada Estadual reeleita em 2014 pelo Estado de São Paulo, acumula o ofício de cantora renomada. A sua pauta de trabalho é focada em negritude, racismo e difusão da cultura. (Fonte: https://www.geledes.org.br/quem-sao-as-mulheres-negras-na-politica/#gs.QQqf1cE)

“O problema tem sua raiz na discriminação que as brasileiras sempre sofreram em todo processo histórico. As desigualdades no mercado de trabalho, nas famílias e em outras esferas sociais ainda hoje estão presentes.” Deputada Federal Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM).

Portanto, é de suma importância que as mulheres saibam mais dos seus direitos, procurem discutir mais sobre eles, participar mais de reuniões sobre políticas públicas e se candidatar para cargos eletivos por que como diz Michele Bachelet. “Quando uma mulher entra na política muda a mulher, quando muitas mulheres entram na política, muda a política”.   Precisamos ocupar todos os espaços em que os padrões sociais nos excluem e sempre excluíram historicamente. Estes lugares também são nossos.

Marici Seles – Militante política e das causas populares – Filiada da Rede Mulheres Negras do PR

 

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