Conforme veiculado no jornal A Tribuna, em uma reportagem especial, um plantão de 12 horas, um médico atendeu até 103 pacientes na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Guarapari, (foto)o que equivale a uma média de oito pessoas a cada hora, ou uma a cada sete minutos.

Esse flagrante foi feito em maio deste ano durante uma vistoria do Departamento de Fiscalização do Conselho Regional de Medicina do Estado (CRM-ES). Mas, segundo o órgão, não é um problema isolado: ocorre em outros postos de saúde na grande Vitória.

O presidente em exercício do CRM-ES, Aloizio Faria de Souza, lembrou que uma resolução, de 2010, orienta que os médicos façam até 40 atendimentos em um plantão de 12 horas, ou seja, um atendimento a cada 15 minutos, em média, em pronto-socorro, pronto-atendimentos (PA) e UPAs.

Na mesma resolução, há a orientação de que os médicos atendam 16 pacientes a cada quatro horas, o que corresponde também a uma média de um atendimento a cada 15 minutos.

No dia da fiscalização, haviam três profissionais, sendo dois atendentendo em consultório (um desses plantonistas atendeu 103 pacientes) e outro responsável pela emergência.

”É um volume muito grande. Ele (médico) não poderia ter atendido nem a metade desses pacientes. O problema é que o poder público, nesse caso municipal, não disponibiliza profissionais em quantidade suficiente para atender a demanda. Então, o médico fica em uma situação complicada. Ele não pode deixar de atender, mas não pode fazer um atendimento de qualidade quando o seu patrão não lhe dá condições de trabalhar.”

E completou: ”Mas isso não é isolado. É uma coisa crônica. Claro que não são em todas as unidades de saúde, em todos os municípios, mas existe com bastante frequência, principalmente em postos maiores de urgência e emergência, como alguns PAs e UPAs da Grande Vitória.”

Aloizio Faria destacou que essa fiscalização é feita desde 2010 em todo o Estado. Ao final, é feito um relatório, que é enviado ao gestor de saúde e, nos casos mais graves, ao Ministério Público, para cobrar providências.

Em outras fiscalizações foram encontradas irregularidades em postos de saúde, como falta de medicamentos, carência de médicos e demais profissionais da saúde.

Na última quarta-feira, o Conselho Federal de Medicina (CFM) e os 27 conselhos regionais da categoria, incluindo o do Espírito Santo, entregaram ao Ministro da SAúde, ricardo Barros, um dossiê de 15 mil páginas sobre as condições de 2.936 unidades de saúde do país.

A QUALIDADE FICA COMPROMETIDA
Médicos da Grande Vitória relatam que quando precisam atender mais pacientes do que o recomendado pelo Conselho Regional de Medicina (CRM-ES) percebem que a qualidade do atendimento fica comprometida.

Um clínico geral que atua na Grande Vitória – que pediu para seu nome ser preservado, assim como a unidade onde trabalha – contou que apenas três médicos chegam a atender 3000 pacientes em um plantão em uma UPA 24h. Ou seja, cada um atende 100.

Esse número, segundo ele, gera o esgotamento físico e mental do médico. Ele admitiu que é possível deixar passar algo que não deixaria caso estivesse com a mente descansada. ”A qualidade do trabalho fica comprometida”, afirmou.

O Presidente do Sindicato dos Médicos do Espírito Santo (SIMES) e vice-presidente da Confederação Nacional dos Médicos (CNM), Dr. Otto Baptista, queo fato é corriqueiro. ”Essa sobrecarga compromete demais a qualidade do atendimento. O médico não dá conta, e isso gera insatisfação do paciente.”

Segundo ele, nos PAs e UPAs da Grande Vitória há profissionais que chegam a atender 150 pacientes em um plantão de 12 horas. ”Faltam médicos nas unidades básicas de saúde e há pacientes que poderiam ser atendidos na unidade, mas acabam buscando o PA.”

De acordo com o vice-corregedor do Conselho Federal de Medicina (CFM), Celso Murad, existe uma deficiência na atenção básica, e quando o paciente busca atendimento na unidade e não consegue, vai para o pronto-atendimento.

A maioria dos postos da rede pública, segundo ele, não tem condições adequadas de atendimento, pois faltam materiais, controle de entrada, triagem bem feita. ”Há uma utilização equivocada dos serviços de saúde, porque a populaçãonão tem outra saída.”

Profissionais relatam que a situação costuma ser pior nos bairros de periferia, onde menos pessoas têm acesso a planos de saúde.

O presidente em exercício do CRM-ES, Aloizio Faria de Souza, salientou que houve aumento da demanda pelo Sistema Único de Saúde (SUS). ”O desemprego, por conta da crise econômica, contribuiu para a migração de usuários de planos de saúde para o SUS, assim como o aumento da população e o envelhecimento das pessoas.”

ESTRATÉGIAS PARA MELHORAR SERVIÇO
As prefeituras da Grande Vitória estão adotando estratégias para melhorar o atendimento. Há mudanças na forma de agendamento e na informatização das unidades.

A Prefeitura de Guarapari afirmou que, desde a última sexta-feira, a Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) da cidade conta com mais de um plantonista para o turno diurno, diminuindo o tempo de espera dos pacientes; bem como fornecendo melhores condições de trabalho aos médicos para um atendimento melhor.

Em Vitória, a prefeitura informou que organizou processos de trabalho; informatizou a rede, ampliando o acesso onde consultas são agendadas com horário marcado, permitindo agilidade ao atendimento com redução do tempo de espera.

Acrescentou ainda que está em fase de implantação do agendamento on-line de forma gradativa nas unidades de saúde do município. Por meio dele, as consultas poderão ser agendadas pelo usuário em sua residência via internet.

A Prefeitura da Serra destacou que mudou o sistema de agendamento para garantir que a duração da consulta de cada paciente seja de, no mínimo, 15 minutos. Segundo a administração municipal, o médico com carga horária de oito horas por dia, por exemplo, atende de 30 a 32 pacientes diariamente.

Já a Prefeitura de Cariacica explicou que está investindo na informatização das unidades, para proporcionar a melhoria no tempo de atendimento.

A Secretaria de Saúde de Guarapari, onde o CRM constatou que um médico chegou a atender mais de 100 pacientes, informou que, a UPA de Guarapari atende como única porta de entrada de urgência e emergência.

Destacou que a cidade tem 120 mil habitantes e população flutuante, por ser turística, e que a média de atendimento no local é de cerca de 240 pacientes por dia.

Segundo a prefeitura, ela conta diariamente com seis médicos nas 24h de funcionamento, sendo três no plantão diurno (7h às 19h) e três no plantão noturno (19h às 7h).

SINDICATO QUER CÂMERA EM UNIDADES
Câmeras em todos os prontos-atendimentos, para ajudar a identificar pessoas que depredam ou agridem profissionais é uma reivindicação do Sindicato dos Médicos do Espírito Santo.

Uma médica foi agredida por uma paciente em busca de atendimento, no município de Cariacica, no último sábado. O ato foi flagrado pelas câmeras de videomonitoramento do município e pode auxiliar a polícia na investigação.

A Prefeitura de Cariacica explicou que o PA do Trevo de Alto Lage, desde o início deste ano, conta com quatro câmeras ligadas à Central de Videomonitoramento da prefeitura, que é interligada ao Ciodes.

De acordo com a administração municipal do prefeito Geraldo Luzia Junior, o Juninho, o sistema permite um acompanhamento, em tempo real, da movimentação na unidade, o que proporciona mais segurança aos pacientes e servidores.

Segundo o presidente do Simes e vice-presidente da Confederação Nacional dos Médicos (CNM), Otto Baptista, o sindicato reivindica que as outras prefeituras tenham a mesma iniciativa e tambémfaçam esse tipo de investimento, para promover a segurança.

Segundo ele, está em discussão com outros órgãos um modelo de ação para identidicar quem vai a esses locais e danifica a estrutura ou agride trabalhadores.

Otto Baptista frisou que é preciso criar condições para identificar essas pessoas, para que sejam punidas, de acordo com o ato que cometeram.

Fonte: Simes

Deixe uma resposta