Eleitos várias vezes para o Congresso Nacional, Ulysses Guimarães e Nelson Carneiro nunca transferiram suas famílias para Brasília. Igualmente a vários outros deputados e senadores, conciliaram o exercício do mandato na Capital Federal com a necessidade de não se afastar dos eleitores, das bases em suas cidades, seus estados.

Doutor Ulysses, paulista de Itirapina, perto de Rio Claro, teve 11 mandatos consecutivos, o primeiro em 1951 e o derradeiro em 1995. Não chegou a concluir o último porque morreu num acidente com o helicóptero em que viajava de Angra dos Reis para São Paulo, em 1992. Faleceu em companhia de dona Mora, sua mulher, que raramente vinha a Brasília. O baiano Nelson Carneiro foi deputado e senador pelo Rio durante 27 anos. Autor da lei que instituiu o divórcio no Brasil preferiu que dona Carmen, a segunda esposa, continuasse residindo na casa carioca.

Amigos de longa data, desde quando o Parlamento tinha sede no Rio, Ulysses e Nelson compartilhavam um apartamento em Brasília. Dividiam as despesas que tinham com supermercado e com a auxiliar doméstica. Lavandeira não porque levavam as roupas sujas para lavar em suas casas, já que iam todos os fins de semana cada um para a sua.

Como foi – Que história! Jornalismo é mesmo uma profissão surpreendente. Muitas vezes, a gente vai em busca de uma matéria e encontra outra.

Alguns amigos bem-humorados diziam que Ulysses Guimarães e Nelson Carneiro eram pão-duros. E era para não gastar dinheiro que moravam juntos. Eu estava fazendo uma reportagem para a Veja com pessoas que compartilhavam a moradia. Então resolvemos botar olhar sobre aquela dupla de velhos amigos.

Cheguei cedinho para fotografá-los ainda no café-da-manhã, essa foto aí, na sala. Repare na mesa: suco de laranja, mamão e melão, ovos cozidos, pão e café com leite. Depois de lerem os jornais, perguntaram-se como tinha sido o sono. Nelson disse ter sofrido com uma taquicardia por volta das quatro da madrugada. Doutor Ulysses preocupou-se e então indagou por que não o chamara.

– Chamei, mas você não ouviu, estava a sono largo. Fiquei assustado, mas logo passou e me senti melhor, respondeu o senador Nelson Carneiro ao amigo deputado Ulysses Guimarães.

Então passaram a falar de um plano para se socorrerem, em caso de emergência, afinal ambos requeriam cuidados médicos. A idéia era usar um cordão extenso que fosse de um quarto ao outro com alguma folga e as extremidades ficariam amarradas no pulso de cada um. Se fosse necessário, era só puxar o fio com força. Dessa maneira, não haveria como não acordar o vizinho no quarto ao lado.

Não se tratava, portanto, de pão-durismo e sim de solidariedade. Evidentemente, eu quis fotografá-los com o “esquema” que bolaram para escapar de um possível desconforto noturno. É claro que me disseram não.

Por Orlando Brito do Site Os Divergentes – osdivergentes.com.br – https://osdivergentes.com.br/orlando-brito/historia-solidarios-ulysses-e-nelson-carneiro/

Deixe uma resposta