Lembro-me de meu primeiro dia de escola e de aula. Eu com seis anos de idade,uniforme com calça azul de tergal,camisa branca e sapatos bem lustrados. Colégio Coronel Pillar  .Minha escola era em um antigo prédio quase anexado ao prédio do exército na cidade de Santa Maria-RS ,  onde vívi do primeiro ano até os sete anos e meio.

Existe uma avenida importante com o nome do meu glorioso avô materno, Garibaldi José da Cunha. Isso por ele ter ajudado nos recursos da Igreja Matriz das Dores e por ter doado parte dos cereais de seu armazém ao exército em tempos de Segunda Guerra.

Bem …em sala de aula entra uma professora de  estatura média e com rosto de alguém bondoso. O quadro de escrever era verde e enorme. Ela se apresentou :”Sou a professora Kássia. “Sejam bem- vindos ao seu primeiro dia na escola.Quem de vocês gosta de desenhar ?” De imediato vacilei em erguer o dedo, pois fiquei meio sem jeito.Mas ergui o dedo e falei, eu desenho qualquer coisa que a senhora me pedir, professora Kássia. Ela ergueu as sobrancelhas e disse:Muito beeemmm, gosto de sua confiança. Mas então aproxime-se e desenhe algo que tú gostes…Me levantei, fui até o quadro e não decepcionei. Alí estava o meu primeiro desenho em público. O incentivo que recebi depois foi motivador. Fazíamos atividades com revistas velhas que se transformavam em peixinhos de pendurar com fio. Carretéis de linha de costura com elastiquínhos viravam ratinhos que se movimentavam.

Em 1972 não se fabricavam garrafas pet mas já tínhamos achocolatados e fazíamos marionetes com as embalagens de uma espécie de embalagem tetra pak e fazíamos marionetes com elas. As aulas eram meio que misturadas, tipo…história com geografia, artes com história e português. As analogias eram muito bem usadas. Criava-se o lúdico de forma suave, onde aprendíamos com diversão.Gostávamos do recreio, exceto quando tínhamos aulas de artes e logo após o recreio. As novidades nas atividades das aulas de artes iam para o horário do intervalo. Essa era, de longe, a aula que mais gostávamos. Usavam-se os objetos e a manufatura pra desenvolver cálculos de matemática,português e história da humanidade. Sobre os primeiros homens a pintar em cavernas, até o célebre espanhol Pablo Picasso. A Professora Kássia era muito dedicada em ensinar. E por nossa sorte, pintava alguns quadros nas horas de folga. Uma vez ela trouxe três de seus trabalhos pintados em um sítio que retratava a paisagem exuberante dos pampas riograndenses. De fato , as artes estiveram presentes em meus primeiros anos de escola. Tive a sorte de ter em minha professora, uma amante das artes e também fui agraciado em estudar em um colégio público, que na época, ensinava arte como disciplina em sala de aula.

À partir disso, tive um novo vislumbre sobre minha percepção de mundo. Percebi que a arte está nas silhuetas de tudo que vejo. Está nas nuvens, que se desenham a todo momento. Está no sol que nasce todos os dias.Estão nas folhas que caem e quase não percebemos.Nos pássaros que pairam sobre nós a toda hora e não temos tempo pra compreender a dimensão de se estar vivo e fazendo parte disso também.Que as flores, na prática, não precisariam ser assim….digamos….tão exuberantes com são. Bastaria serem práticas, mas a beleza envolvida na dança de um beija flor que se aproxima de uma flor é algo mágico de se ver.Na vida prática, a arte está em tudo e basta respirar um pouco mais devagar  e escutar as vozes que vem de dentro, as imagens que vem do ar, do vento. Tudo são mensagens sobre nós mesmos, sobre nossas agruras, arrependimentos, “verdades”, “mentiras”, felicidades geralmente efêmeras, pois as condicionamos a um mundo extremamente material. Onde ela só é acompanhada quando podemos comprar coisas e ir a lugares exuberantes.

Não nos esqueçamos dos hospitalizados, que tem como felicidade, o dia em que sairão pela porta….vivos e com um corpo saudável pra curtir todos os elementos da natureza que também lhe pertencem, além de suas roupas e seu relógio que não pára.Mas enfim, a escola deveria preparar seres humanos e não empresários, empregados e profissionais de todas as áreas. A arte institucionalizada nas escolas, deveria ser a principal matéria. É nas artes, por seu poder de desencadear nosso senso cognitivo é que encontraremos compreensão e com sorte,um caminho que nos traga felicidade, pelo poder de compreensão de tudo que nos cerca.

Rogério Aquino é artista plástico , ativista cultural do Brasil e de Colombo

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