Todos os dias, assim que o galo canta, novas células, novo ar, um novo caminho, novas situações, palavras, pessoas, coisas e situações.  Nesse mundo caótico, cosmopolita, cheio de hipnose. Como absorver e usar o ar e as células que ganhamos diariamente?

Nessa abstração que nos impede de aproveitar a vida em toda sua extensão.  Não há tempo?Não há horários disponíveis?. É o trabalho que nos escraviza, a novela que não podemos perder o capítulo. São as compras no mercado. O carro que precisa de concerto. Há datas e compromissos a cumprir. Tem nossos sonhos que precisam se tornar realidade e eles dependem de uma certa quantia de dinheiro e esforço. Nossa jornada é árdua, cheia de contradições, cheia de fluídos e ruídos que nos distraem. Como parar pra ver o sol nascer? Como parar pra olhar pro céu estrelado? Observar pássaros. Tomar banho de chuva. Parar pra sentir o vento. Sentir nosso pulsar. Olhar pra nossas mãos ,pés, nossa vida. O que estamos fazendo de nossas vidas? Sim, estamos lutando.Mas será a estratégia certa? O caminho será mesmo este que estamos trilhando? Temos vários seres dentro de nós brigando entre si. Quem vencerá?. Dentre esses seres, quem está vencendo?. Perguntas existem aos montes. Respostas poucas, pois elas só vem com o passar do tempo. Estamos em uma viagem no tempo. Levando e arrastando nossos corpos e mentes  ao desconhecido, ao abstrato…Numa viagem eterna na busca de sonhos, de resultado que satisfaçam muito aos outros, à família, aos amigos e à sociedade. Nos ensinaram já na escola que um homem ou mulher de sucesso tem que ter dinheiro, status, bens materiais. Não nos ensinaram a sermos bons seres humanos. A aproveitar o vento, o sol, a lua, as estrelas, a olhar pássaros, borboletas e flores.

Parece poesia? Sim, parece sim…Pensar nessas coisas é obsoleto, pois temos metas mais palpáveis a cumprir. Não há espaço pra poesia, nem pra arte, nem pra apreciar flores, sol, estrelas. Lá fora o mundo é real e isso tudo parece muito real e desnecessário. O mundo precisa de objetivos mais coesos, sem espaços pra sentimentalismos. Nossa vida é uma concorrência. Nossos relógios não param e nos cobram com veemência resultados. Devemos isso aos outros. Temos que dar satisfações de nossas ações e pensamentos.

Não dá tempo de conversar com mendigos. Apenas daremos-lho moedinhas e teremos cumprido a meta de sermos “humanizados” e caridosos. Não dá tempo de olhar o sol, apenas observar se vai chover e isso até serve  apenas pra um início de conversa. Não dá tempo de pisar na grama. Não dá tempo de fechar os olhos em pleno trânsito e pensar o quanto seria bom estar pisando em uma areia de praia agora. Bike só final de semana, pois o carro é necessário pra nos levar rápido a cumprir metas que satisfaçam mais aos outros do que a nós mesmos. Teríamos pensado outra vida pra nós do que a que temos? E o que dizer sobre nossos projetos para o amor? O que estamos fazendo pra melhorar a vida de outras pessoas? Mesmo dizendo-lhes palavras honestas e de incentivo.

Julgamos demais, trabalhamos demais, lutamos demais pra deixar alguns poucos muito ricos e absorver as migalhas que sobram pra nós, pra que aproveitemos apenas nos finais de semana.Mas não podemos parar. Não podemos viver como queríamos, como desejamos que fosse. Estamos numa eterna busca e corremos atrás do vento. Corremos atrás pra comprar quinquilharias que quebram e tem de ser trocadas constantemente. A busca interior fica pra mais tarde. Poesia e filosofia não é importante.Não cabe dentro de um contexto prático de realidade. Vivamos então com o que temos, com os nossos argumentos e desculpas pra nossa pressa em”conquistar”.

E os seres que habitam em nós continuarão em uma eterna briga entre si até  o último suspiro sem descobrir ao certo porque ganhamos essa vida…

Rogério Aquino – Artista  Plástico e Ativista Cultural de Colombo e do Brasil

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